sábado, 8 de março de 2008

Eu nadei no Lago de Palmas

Conforme combinado chegamos ao lago as 9 e meia da manhã. Protetor solar, camiseta de nadar, touca e óculos na mão. O coração a mil e a certeza do próximo passo: nadar no lago. Eu vinha esperando por esse momento há muitos meses. Depois de muito treino em piscina e algumas provas pelas praias de Caseara, Peixe e Araguacema, em julho, era hora de nadar no lago. Meta: ambientar-me às águas abertas para a prova de triatlon do próximo dia 29 de setembro, aniversário do lago.

“Mas você não tem medo de piranhas?” Não, eu não tenho e elas não me querem porque eu não sou arroz e não estou na beira d´água, ao lado de outras muitas comidinhas apetitosas.

Descemos o barranco depois do primeiro vão da ponte. Meu amigo Sergio conhecia, literalmente, o caminho das pedras. Ele me mostrou até onde iríamos nadar, disse que era pra eu ir olhando para os postes da ponte e para não me afastar muito da margem. Tudo pronto. Tchibum....

Primeiras braçadas e o coração disparado, adrenalina, nervoso, dificuldade de respirar, o fôlego não dava para duas braçadas... relaxa... nada peito... relaxa ... agora vai. Braçadas crawl, respiração bilateral. Vamos lá, Denise. Você sabe nadar, você nada 45 minutos na piscina, você tem boa resistência, tem treino... e sabe nadar. O coração a mil e o fôlego, sumiu.

A camiseta que os atletas que terminarem o triatlhon vão ganhar escrito finisher vinha à minha mente. Ela é linda e eu quero uma pra mim. Imaginei todo mundo com ela, menos eu. Não, não vai dar. O Sérgio, paciente, dava dicas. Respira um pra um, na terceira braçada olha o rumo... não se afasta... joga o braço longo... Mais uma vez. Vamos lá. Cheguei a pensar se o que eu treinava na piscina era a mesma coisa que eu estava fazendo ali. E agora? Como é que eu vou fazer pra desistir da coisa que mais quero? Eu não consigo respirar... Como vai ser sair daqui caminhando pela ponte sem ter chegado a lugar nenhum? Não gostei da idéia e insisti. Já encarei ondas piores que esta e consegui. Estou onde queria estar e vou prosseguir. Não sei como vou fazer pra respirar mas não vou desistir.

A ficha caiu e eu comecei a nadar respirando de um lado só, olhando pra ponte, tateando com os olhos a reta a nadar. Fui relaxando. Nadar respirando só pela direita,.. respiro melhor,,, meu coração se acalma,,, percebo o que os meninos dizem sobre “encaixar a nadada”. Eu estava conseguindo. A mente é perversa e pode estragar tudo. Mantenho o controle. Não deixo a mente se empolgar. Percebo meu corpo. Sigo com cuidado, braço, respira, braço, respira, sempre pro mesmo lado. Ouço o ritmo do meu corpo em sintonia com a água. A repetição compassada é um mantra. Percebo isso e me entrego. Nado forte e me vejo mais veloz. Sorrio. É isso. É assim que tem que ser. Eu consegui. Fui. A mente se desconecta e o corpo entra no automático. Nossa! É tudo tão fácil, tão óbvio. Como não havia percebido isso antes?

Só me dei conta de onde estava quando o Sérgio disse que era pra voltar. Voltar pra quê, pensei. Ano que vem atravesso o lago todinho, prometi. Agora era respirar pro outro lado pra continuar me guiando pela ponte. Precisava mesmo disso. E como diz o PG: a volta é uma descida, então vai. E foi então melhor, muito melhor do que a subida. Nem as marolinhas que me freavam o corpo foram capazes de me tirar o prazer das braçadas. Eu tinha conquistado as “águas abertas”. Agora entendo na carne o significado daqueles olhos vidrados dos meus amigos antes e depois de cada competição que promovemos, há anos, no lago. Agora eu compartilho do segredo deles e, assim como eles, também quero mais.

Voltamos em 37 minutos, tempo em que devo ter “levantado vôo” algumas vezes. Observei com tristeza a margem do lago repleta de latas, plásticos, papel, de tudo um pouco. Será que ninguém limpa isso daqui?

Chegamos ao ponto de partida completando quase uma hora de braçadas. Eufórica, queria marcar outra nadada pro dia seguinte. O Sérgio me prometeu outra pra dali uma semana. Não sei não. Acho que não vai dar pra esperar.

Fora o lixo, não vi piranhas, nem plantinhas aquáticas. Mas infelizmente, não saí imune do lago. Cortei o pé assim que pisei no asfalto onde alguém fez o favor de quebrar uma garrafa de cerveja, deixando cacos espalhados pelo chão. É por isso que eu gosto de estar dentro d´água. Lá estou a salvo e em paz. Nada melhor do que nadar no lago. É o maior barato.

Um comentário:

Márcio Di Pietro disse...

Vai nessa que é bom a beça ...

Bjus


Márcio